- Você me ama? perguntou ele.
(nosso sexo nunca foi sexo. fazia aquilo tudo pelo simples fato de fazer, pelo fato de venerar o entrosamento entre os corpos, entre os pêlos, entre os órgãos, entre a tua barriga magro-definida e a minha branca, de clarear os olhos. tua mão segurando firme o meu, já não dizia nada, e o teu pau rijo, severo e violento já nem me endurecia os mamilos. e eu que te sonhei por dias adentro, sonhei com os olhos bem abertos pois já nem conseguia mais dormir. te sonhei em minha janela, enquanto a lua beijava meu cigarro aceso, até o sol apagá-lo, disputando fervorosamente com a brasa de outros vários cigarros acendidos, um-atrás-do-outro. o pior do amar é o amar distante. te amo tanto quando estás longe que, ao te aproximares, meu amor não percorre, mas também não vira ódio: vira nada. vira falta de amor. vira vazio. hoje, já não quero mais desenhá-lo com a língua. quero mesmo é cuspir-te da minha boca: você e esse seu gostinho, impregnado no meu, confundido no meu travesseiro, impresso e exalando em minha pele. sinceramente, quero mesmo é que te deites ao meu lado, sem vontade alguma, sem qualquer contato físico-carnal, sem qualquer desejo, deixando-me incólume da vontade de querer-te que, apesar de, ainda pinga, esperando vazar a tua última gota que transborda em mim. eu sequer me entendo, para te entender ou compreender esse amor-ódio-vazio que tenho por ti.)
- Te amo, mas não conseguiria definir esse meu amor. Esquece o amor e me abraça? Mas não abraça meu corpo, e sim minh'alma.
se abraçaram então desde aquele dia friozinho de agosto, e se dissiparam por ai até o infinito, onde agora podiam ser estrelas, uma olhando para outra, uma piscando para a outra, uma frente-a-frente com a outra, sem a menor aproximação.
F;