o céu partido ao meio, no meio da tarde.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

carta à Saudade

Quando o vi ele escutava o piano atentamente, e a cada nota, uma lágrima. Chorava? sim, chorava. não de ressentimento, não! nem sequer arrependimento, tristeza ou melancolia. nada muito complexo ele possuía dentro. Se me lembro bem, chorava de dor, daquelas dores exaustivas, aquelas dores pesadas, escuras e sufocantes, entende? eu sei que você vai entender. Entre suas mãos estava seu rosto, entre a mesa e a cadeira estava ele, naquele velho lugar de sempre, se lembra? aquele pedacinho do quarto antigo, feito de escritório, já até com cheirinho de mofo. Lá estava. Não estava sozinho, aliás nunca esteve, sempre vinha acompanhado de seu cigarro (espalhando as cinzas a todos os lados ou deixando um pouco de lembranças jogadas nas bitucas). Cigarro, sempre o seu cigarro, a lhe acompanhar o dia inteiro e a contar-lhe as horas pela fumaça. Ele não dizia nada. (talvez fôsse mudo, ou simplesmente estava cansado de falar. sempre se cansa de ouvir a própria voz: e ouve-se, então, o silêncio. o mais puro e doloroso som de não escutar nada) Não comia nada. Nada parecia importar-lhe muito, mas muito pelo contrário! se você quer saber, tudo lhe importava bastante, o que passa é que quando a gente sofre tanto, chega um ponto em que se esquece. E sofria dessas dores, aquelas bem pesadas, já te disse não? pois bem, das exaustivas. Lhe doía tanto que a dor dele veio doer em mim, e como dilacera a dor dos outros!
Por fim (estou por terminar, tenho pressa em escrever a carta e enviá-la ainda hoje! não quero perder o bonde das dez) e apesar de tudo, ele está bem, se você quer saber. A vida é tão cheia de confusões que confundir-se já tornou-se sua certeza. E repito: ele está bem, Saudade, ele está bem. Por mais que doa, e que sempre vá doer, ele estará bem. Não digo que a culpa é sua Saudade, não me leves a mal! Não me equivoco em dizer que ele, e tenho todo o direito de dizer por ele, sofre. sim, ele sofre, d'uma dor contínua, da dor que nunca sara, a dor que nasce, Saudade, de sentir a saudade de tudo.

Me afastei dele porque percebi que, qual maior a distância entre nós, menor a proporção da dor.
Sei que será impossível permanecer longe. Muitas e muitas vezes ainda virei até aqui, até aquele pedacinho de quarto antigo, sabe? aquele que virou escritório e que já tem até cheirinho de mofo. Virei e o assistirei escutar o silêncio, escutarei a fumaça de seu cigarro e ali estarei, até doer menos, Saudade, até você doer menos e eu puder voltar a escutar o piano.

F;

Um comentário:

Hélio Netho; disse...

A Saudade é a nossa certeza de que algo nos entende. Afinal sentir ela é tão intimo que se torna publico. Isso porque pertence a um, porem ao mesmo tempo é passível a todos. Espero que ela receba sua carta. Mande lembranças.