o céu partido ao meio, no meio da tarde.

sábado, 4 de novembro de 2017

O sorriso no espelho

- Você está obcecado com os seus dentes!

(Ora, meu caro. Não é simplesmente uma questão estética. Quando olho no espelho depois da comida, quero me certificar de que tudo esteja no seu devido lugar. Quero estar confiante. Não é limpeza: é insegurança. É o meu inconsciente vigilante. Não é medo da imundície, da sujeira. Sou eu tentando transparecer o lado mais pulcro. Não é o pedaço de herbácea que destoa: sou eu exigindo que haja espaço suficiente para que as minhas palavras fluam sem empecilhos. Sou eu querendo falar no teu ouvido no meio dessa gente toda. Sou eu me escondendo detrás desses pedaços esmaltados, chamando a tua atenção, fazendo que me mires com esses teus olhos cansados: olhos de quem passa os dias escrevendo na lousa. A minha obsessão em tê-los polidos é tão somente o reflexo do que eu quero que vejas. Quero estar sempre à postos, com os caninos afiados e preparados como armas, para que, quando gires esse teu rosto delicado - com o gesto sútil dos que caminham com os pés abertos - não enxergues nada mais. Que a mesa desapareça. Que a comida se desfaça. Que o vinho se derrame sobre o teu corpo, tão miúdo e belo, e que te encante. Que eu te encante. Que os meus lábios sejam o teu objetivo de prazer. A minha boca é o caldeirão dos feiticeiros. Quero derramar sobre ti a saliva ácida de quem mata dragões. A minha boca é a cova dos dragões. E quero somente te devorar por completo. Minha preocupação não é superficial. Quero ter os molares decididos a morder a tua pele clara. Quero ter a facilidade de enterrar os incisivos na tua massa feita à mão e decorada de rabiscos. Quando sorrio no espelho e te resguardo de canto estou pedindo para que me queiras. O meu sorriso é a minha carta de entrada. O meu sorriso é o meu menu principal. E farei de tudo para que me percebas e me desejes. Sorrirei até endurecer os maxilares para demonstrar o que o meu olhar, já tão anestesiado, não consegue transmitir. O sorriso é o salva-vidas da alma. E os meus dentes brancos são o convite desesperado para que mergulhes.)

- Gosto de tê-los limpos. Sempre.

E te sorri tão profundo que afoguei
as olheiras em minhas próprias
sobrancelhas.

(Esse sorriso,
meu caro,
é tudo o que tenho
para
te oferecer.)

F;

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Il coccolare della notte

Cuando la bóveda de los dioses
recién había abrazado la ciudad
y besado con boca oscura el panorama,
decidió sentarse, incómodo, en el balcón:
la mano fría del viento siempre le tocaba dulcemente. 
La incomodidad de las piernas 
le apretaba el sexo,
pero no lograba identificar el dolor:
si venía de la entrepierna
o si su corazón había bajado a sus calzoncillos. 
Extraño pensarlo así, porque pensaba demasiado
y jamás pudo entender de dónde venía el sentimiento. 
Era uno y, a su vez, tantos
que lo real se deshacía. 
“Lo real es siempre como una noche de vino”, pensó. 

Se encontraba limitado. Su mirada se dirigía a la punta de dos iglesias revestidas de ocre.
 “Lo real juega siempre con lo sacro, y santificados sean los arcángeles que reposan
sobre estos techos!”. 

Pensaba tanto. Intentaba buscar palabras,
pero la vida le presentaba nada más que tejados de sangre. 
Estaba por encima de los que caminan
y abajo de los que vuelan. Pobre miserable.

- Quieres tomar la posición del que juzga? 

Muchas uvas destiladas y poca comprensión. 
Demasiadas palabras y,
sin embargo, tanto silencio. 
“Lo real es una calle que espera,
una calle triste que no termina en ningún lado”. 

Las estrellas solo brillaban
cuando su pescuezo se inclinaba. 
Las contó con una sola mano
sin apuntarlas. 
- Los que cuentan cometas con los dedos
se llenan de verrugas 
(así le habían dicho en su país). 
“Lo real es una deformación en el dedo. 
Es apuntar a lo alto con el indicador”, pensó. 

Lo ves? No dejaba de pensar!

Hasta que los ruidos lo trajeron de nuevo,
y los gritos de los insomnes 
le acuchillaron lo que, en él, era vacío. 
“Lo real es el tiempo que no pasa:
o uno está completo con lo que no se tiene,
o uno se olvida de cambiar las pilas del reloj.”

Le habían dicho ‘il signor banana’
pero sabía que su fruta era amarga. 
Las criaturas malignas de adentro
se reían de su intento de amar. 
“Lo real es lo que se quiere
mientras otros se ríen.
Amar no trae sonrisas. 
El amor es la primavera
que se agarra entre los dientes.”

Pero justo cuando el firmamento había enlazado la ciudad
y besuqueado de ‘no-luz’ el panorama,
la noche decidió invitarlo:
- Acuéstate, pequeño,
que tienes la cabeza confundida
y los labios secos
de tantos deseos
vino. 

F;

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Sal de Nápoles (in bocca)

Em frente aos mamilos da terra a cidade inteira se sentava. No pranto dos céus, tão azul e salgado, se notavam os matizes mais claros que os barcos deixam ao passar, lentos e sujos, quando provocam as ondas. Uma pincelada de outro tom desenhava curvas nessa imensidão líquida que aqui se denomina “il mare”.
Quatro crianças brincavam na madeira antiga dum veleiro velho e podre apoiado em diagonal, que disputava a atenção dos humanos e das pombas.
Então eu quis ser pomba.
Talvez voasse para outra costa ou outras montanhas. Porque neste antiquário de ruas estreitas os pássaros são objetos: os que têm asas, aqui, são enjaulados.
A liberdade me gritava do lado de lá e o meu peito, idiota, não reconhecia a sua voz.
O mar e o vento frio me beijavam com saudade. Era o beijo dos tolos: dos que sentem o gosto de tudo aquilo que ainda não viveram.
F;

terça-feira, 4 de julho de 2017

Clarividência

Explodia em furacão o peito, em desassossego, e então toda a confusão do mundo se fazia matéria. O ar pesava vetusto e as paredes do quarto o sufocavam, como quando se sustenta um pássaro miúdo entre os punhos fechados com a intenção de salvá-lo. A liberdade o custava e o cobrava, feroz, rangendo os dentes. Nas garras da insegurança tremia com os pés duros e frios de quem demonstra costume ao caminhar noites adentro sobre o gelo. Lhe sangravam as frieiras e os olhos, e da linha da vida de sua palma brotavam os espinhos.
A liberdade era uma flor morta e envenenada. E o não-saber era a cigana que lhe desvendava o futuro acariciando sua mão.
F;

Amar é ciclo

Sonhava uma e outra vez o mesmo sonho no intuito de controlar o resto diurno, de controlar o que acontecia, onírico, e tapar a manifestação inconsciente do desejo. Sonhava uma e outra vez entrecortado: o sonho era sempre o mesmo, mas o sono se dividia em pedaços, como uma grande pizza colocada sobre o próprio limbo interno. Sonhava mais uma vez até que uma voz de rugido veio quebrar o encanto: o desfeitiço era como uma luz que estupra a escuridão e ingressa, sem licença, por debaixo da porta. A voz invadiu a sétima sonolência, estapeando a lentidão dos que dormem e colocando-o na realidade dura e doce de se despertar com uma poesia falada. "Te amo de uma maneira profunda, como quem ama o escuro e a sombra", ouviu. E nesse mesmo instante seu corpo respondeu a prosa, seus olhos atreveram-se a rasgar a falta de visão e seus ouvidos voltaram a estar presentes. Sua mãe, como uma grande ninfa cor-de-rosa a altura de seus ombros, ria-se da desconexão do discurso de uma parente. "Hoje estou bem cachoeira, irei atrás de um cachorro..." dizia a prima.
Sonhava uma e outra vez o mesmo sonho. Ou seria o amor, que escuro e sombra e luz vinha rir da sua cara?
Amar é como ir atrás de um cachorro.
E entregado como uma pena ao léu, escondeu a cara entre as mãos e amando ensinou seus olhos a dormir mais uma e outra
vez.
F;